Conversa cretina (manual da vida)
Quando durmo, não sei se gosto de ter sonhos bons ou se me agradaria
mais ter pesadelos. Se, por um lado, sonhar felicidades inalcançadas é
uma espécie de alívio do mundo real e funciona como um convite para o
sono, por outro, é um prenúncio de um martírio: quando acordo e descubro
que minha alegria existiu apenas no plano onírico, sinto vontade de
entrar em coma, dormir para sempre, tornar-me cataléptico para não ter
mais de engolir o mundo sem ter ao menos uma coca-cola para ajudar a
empurrar. Acordar é entrar numa nova batalha contra a vida (sim, é contra a vida
que se luta e não contra a morte), dia após dia construindo trincheiras
para evitar a artilharia pesada das ilusões que levam à desilusão, dar o
sangue para não idealizar perfeições apenas para, no fim do dia, na
cama antes de dormir, perceber que a vida não é mais do que isto: algo
idealizado, uma vontade insaciável de ter algo que quando obtido não
sacia, um amor de conto de fadas que só existe em contos de fadas,
nenhum happy ending, só começos, só vontade, só querer e não
poder, essa fissura, essa larica e essa ressaca de estar por aí em busca
do que inventaram para servir de razão a esta infame coisa sem razão
que é a vida. Caminhar na chuva em meio à uma multidão de pessoas mudas é
ainda mais doloroso que andar sozinho sob o sol escaldante no meio de
um deserto qualquer. ser um fantasma que vez por outra se humilha, pede,
implora, rola no chão por um pouco de atenção de alguma alma sem olhos,
dizer “fica” e ver cada uma se afastar cada vez mais usando como
desculpa o medo que todo mundo tem e não passa. Sentar, acender um cigarro, escrever uma
carta, não sentar, não fumar, fingir esquecer quem você ama e não
escrever, sorrir sem motivo, ou chorar, se fazer de durão quando todos
sabem que não existem durões mas fingem que existem por conveniência,
acordar, voltar a dormir — dá tudo no mesmo. ponha sua vida na mão de
outra pessoa e você acordará morto; cuspa na cara da sua solidão e ela
se tornará um cavalo fodendo seu rabo (sem KY); caia em prantos
desesperado arrancando os cabelos porque está doendo viver e assim
surgirá um exercito para chamar você de fraco, porque, nesse jogo de ser
(ir)racional, é cada um por si e todos contra Deus. neste exato
instante, em algum lugar lá fora, um cão uiva para a lua; o galo,
acordado antes da hora, tonto de sono, ensaia um canto desafinado só
para manter sua fama de macho. cada coisa em seu devido lugar, como dita
o manual de instruções que ninguém leu mas que todos, cada um a sua
maneira, deram um jeito de interpretar. fulano dizendo que é feliz mas
temendo olhar em torno de si para não encontrar algo que destrua seu
castelo de areia; sicrano rindo da própria desgraça para não se atirar
do primeiro viaduto; beltrano se escorando na religião para não ter que
pensar que a vida é só isso e ponto. um filosofando, outro se cagando,
mais de um bilhão se fodendo sem nem perceber e lá no alto da torre o
urubu sorrateiro a imaginar quem será o próximo a inflar seu papo sem
fundo e sem fundamento. mas, como disse sabiamente um poeta: chegou um tempo em que já não adianta morrer, chegou um tempo em que a vida é uma ordem, a vida apenas, sem mistificação.
e, hoje em dia, viver não é fingir ter aquilo que não tem (que é o que
se faz quando tem alguém ouvindo), viver é, no escuro da companhia de si
mesmo, encontrar maneiras de conviver melhor com a presença daquilo que
não há, o vazio, o sonho, a falta de. acordar depois de um sonho bom,
perceber que na vida todo o bom é efêmero, decepcionar-se mas
imediatamente colocar-se em espera pelo próximo momento que não será
infinito, no entanto, pela brevidade em que durar, conterá toda a
eternidade que falta no resto do tempo. cantar uma canção alegre e/ou de
amor, abrir as janelas, as portas, a cabeça, o corpo, dizer: Olá Rosinha, eu só quero dizer que eu gosto de você,
e ver, mesmo que numa miragem, ela sorrir e dizer que é recíproco.
ligar um ventilador para simular que o dia está mais fresco e que o
inferno tem aroma de primavera.
[moral da história: a vida não é uma trepada, é só uma punheta]