Intocável
Não esperou o próximo inverno ou a primavera começar para levar suas coisas e sei lá, ir embora. Em cima dos cacos de vidros, daquelas lembranças do nosso último encontro. Um meio-termo, sem jeito pra falar. Veio-me na cabeça aquelas cartas, bilhetes, roupas, tudo que tinhas deixado para trás e que me deu uma vontade tremenda de corrê-las sobre a casa e deixá-las ao fogo. Queimar tudo. Mesmo que se cortando e se ferindo sobre as ruínas que tínhamos deixado para trás, pelo chão dos vagões da vida. Eu estava lá. Porém eu arranharia seu rosto de ecos. Um eco embriagado de desculpas, um eco de timbre frouxo soando mil declarações de amor ao vento, um eco trôpego de abraços, um eco falho repleto de frases gritando por você, lhe agarrando, lhe chamando pra voltar, lhe dizendo que sem você a vida não seria nada. Um eco pra lhe deixar em casa e passar sei quantos invernos adentro ao seu lado. Um eco de amor, lhe pedindo para que você fique mais um pouco. Ela nem sonha o quanto foi difícil ter ficado só. Ela nem se preocupou em dizer o adeus, ficou ali em cima do 'Muro de Berlim' por um bom tempo e foi a brisa bater, caiu pr'outro lado deixando o castelo mal-construído, a nossa vida mal-resolvida e o nosso amor mal-acabado. Ela podia voltar de qualquer jeito, descabelada, nas desavenças ao telefone, aparecendo na televisão, jogando pedras no meu quarto, ter gritado meu nome. Eu aceitaria aquele rosto pálido de mulher donzela aos prantos. Eu aceitaria aquele corpo selvagem desvirginado pelas suas imprudências. Eu a tiraria daquela fossa de mágoas e não a deixaria sequer virar as costas. Eu aceitaria o silêncio das tardes de domingo e feriado, respeitaria seu ciclo, as tensões femininas. Eu a ajudaria a trilhar naquelas linhas enferrujadas que ainda passavam sobre nosso quarto. Eu a amaria do mesmo jeito, mesmo depois de ter sido tirado do porta-retrato. E a queria como ninguém mais. Queria...