Sei que gosta de mim quem não me conhece, me ama quem me idealiza, e quem tem conhecimento de ao menos 70% de mim permanece distante. Absolvo, é um direito, e eu também ficaria longe. Tenho pouco a dividir e menos ainda para dar. Peço apenas que mantenha sua piedade ou ajuda miserável a distância de mim, porque você me dará apenas uma mão, enquanto eu aceito somente corpos inteiros.
Conversa cretina (manual da vida)
Quando durmo, não sei se gosto de ter sonhos bons ou se me agradaria mais ter pesadelos. Se, por um lado, sonhar felicidades inalcançadas é uma espécie de alívio do mundo real e funciona como um convite para o sono, por outro, é um prenúncio de um martírio: quando acordo e descubro que minha alegria existiu apenas no plano onírico, sinto vontade de entrar em coma, dormir para sempre, tornar-me cataléptico para não ter mais de engolir o mundo sem ter ao menos uma coca-cola para ajudar a empurrar. Acordar é entrar numa nova batalha contra a vida (sim, é contra a vida que se luta e não contra a morte), dia após dia construindo trincheiras para evitar a artilharia pesada das ilusões que levam à desilusão, dar o sangue para não idealizar perfeições apenas para, no fim do dia, na cama antes de dormir, perceber que a vida não é mais do que isto: algo idealizado, uma vontade insaciável de ter algo que quando obtido não sacia, um amor de conto de fadas que só existe em contos de fa...