Devo lhe dizer, amor, que tive um sonho com você. não um sonho comum, mas um desses reais, um estranho e cego sonho profético. De repente o mundo, por circunstâncias não explicadas no sonho, resumiu-se num quarto fechado, quatro paredes em preto e branco onde todas as outras cores concentravam-se apenas em você e eu. sem outras almas, sem linhas, sem distâncias, sem diferenças. só você e eu e o mundo que era um quarto de luzes apagadas. E isso persistiu por dias, meses, séculos, eras contadas a partir do primeiro segundo do tempo onírico que uniu fogo e coração para gerar uma reação química de ebulição: o conhecimento em sua matéria mais densa: nós a sós e o mundo em preto e branco. Não era um sonho apenas de sexo como os que tenho com freqüência, já que passávamos por uma tentativa de conhecimento intensiva, conversas, observações, perguntas, respostas, testes, descobertas. havia muito mais preciosidades engastadas, mais significados, segredos, enigmas e revelações incrustados nessa fantasia. noto agora que era uma espécie de antônimo da realidade que nós, por ventura ou desventura, temos vivido — realidade esta que, por sua vez, também é decorada com fantasias e desejos sem olhos, sem toque, sem cheiro, sem voz, sem gosto. Mas ali, na realidade do sonho, tudo era demasiado e claro — a imagem limpa do outro corpo que faz parte deste meu corpo nu, a sensação do arrepio constante sob o olhar do estranho-conhecido e os dedos que perscrutam a pele em busca da solução que simplifique os desprazeres da existência, os odores e perfumes concentrados no ar que enche nossos pulmões sedentos de vida, vozes coloridas doces delirantes misturadas e univitalinizadas, o sabor penetrante do não-estar-só da sua pele e seu suor e seu sorriso esquisito temperado com o sal e a pimenta e o azeite rústico do meu corpo em descoberta. Em algum momento, fiz-me pequeno à sua presença e pus-me a correr desvairado em sua pele tendo em punhos uma bandeira de liberdade, corri por eternidades por todos os desvios e armadilhas do seu corpo em êxtase, até me deparar com o conforto de saber-me livre na sua pele, libertas quæ sera tamem. e, num paradoxo, quis morrer de amor ou loucura ou desejo insano e viver ainda mais pleno nesta glória. senti-me impulsionado a adentrar meu chão, reinventar paredes e abraçá-las com ternura e força até doer, estar sob sua pele e lá viver na segurança que aqui fora me é negada — saltei, como um suicida, e cai: estou caindo: dentro de você: dentro.
Agora você pode dizer que eu estou lhe torturando.
mas amor, a tortura faz parte desse nosso jogo.