Do fundo do mar, que fica dobrando a esquina, alguém pode escutar: Taptap – um suspiro, um estouvivo, natimortovivo. Mas sou daqueles proibidos de sonhar, porque o mundo nasceu feio. Sou um garoto mau, tentando bancar o bonzinho porque… Porque cansei de criar motivos para me arrepender. Os anos passam, as feridas curam, mas as cicatrizes ficam. Esse sorriso rasgado na minha cara de idiota, este olhar assim: estou triste, oba! Da incerteza de quem vive na certeza do incerto. Meu tempo exato é quando. Meu instante-já é ainda. Posto que agora foi ontem e eu ando tão porenquanto que já nem me lembro mais de perder a calma. Arrancando meus olhos, quebrando ossos deficientes de cálcio. Porque o diabo tem pernas bonitas e só usa minissaia. Os anjos têm cabelo carmesim, mas como eu disse: sou um garoto mau. O diabo tem madeixas loiras, mas eu sou bom demais. Estou no meio-termo, neste mundo tão sem meio-termos. Eu que sempre fui de extremos, acabei padecendo aquém da via estreita dos sonhos que perdi, frutos que pedi. Contra-senso, controverso. Sem muito explicar, exposto no subentendido, subjetivo sou, apenas tentando. Deixo de lado a estética da poesia pra compor desabafos extra-racionais, assim, desse jeito torto, mal feito mesmo.
Conversa cretina (manual da vida)
Quando durmo, não sei se gosto de ter sonhos bons ou se me agradaria mais ter pesadelos. Se, por um lado, sonhar felicidades inalcançadas é uma espécie de alívio do mundo real e funciona como um convite para o sono, por outro, é um prenúncio de um martírio: quando acordo e descubro que minha alegria existiu apenas no plano onírico, sinto vontade de entrar em coma, dormir para sempre, tornar-me cataléptico para não ter mais de engolir o mundo sem ter ao menos uma coca-cola para ajudar a empurrar. Acordar é entrar numa nova batalha contra a vida (sim, é contra a vida que se luta e não contra a morte), dia após dia construindo trincheiras para evitar a artilharia pesada das ilusões que levam à desilusão, dar o sangue para não idealizar perfeições apenas para, no fim do dia, na cama antes de dormir, perceber que a vida não é mais do que isto: algo idealizado, uma vontade insaciável de ter algo que quando obtido não sacia, um amor de conto de fadas que só existe em contos de fa...