Conversa cretina (moscas no copo)

Eu poderia como todas as outras vezes em que estive em situação parecida simplesmente dar de ombros e dizer: foda-se, eu não preciso de nenhuma mosca zumbindo em torno da minha bebida.
Eu poderia não ficar tão triste na véspera daquilo que tenho esperado por semanas, mas sou humano demais e fraco demais e os traumas do meu passado instável ainda me fazem ter medo das coisas darem errado.
Eu poderia dar um chute no meu próprio saco para ver se deixo de ser tão fraco e tão imaturo sempre implorando pelas migalhas dessa gente que a não ser para mim não vale nada.
Eu poderia me contentar com o que tenho e com o que não tenho e dar minha cara a tapa para obter sucesso para os meus projetos sem me importar com o que pensam de mim ou do que faço.
Mas é um chute nos bagos ter de ser visto como um imbecil pela milésima vez e estar consciente de que provavelmente o único responsável pela cagada sou eu mesmo e mais ninguém por causa da minha incapacidade de ter paciência e por eu ainda ser tão afobado indo com sede demais ao copo e à garrafa e nesse destrambelhamento acabar derrubando tudo e ainda me cortar com os cacos.
É um chute nos bagos fazer a vez do idiota e ser visto apenas como um idiota não por quem eu também vejo como idiota, mas por alguém que eu admiro e adoraria ter no meu círculo restrito de amigos, bebendo da mesma garrafa ou que pelo menos me ignorasse e não me olhasse assim, como se eu fosse só um idiota.
É um chute nos bagos levar um bota-fora e panabundeado ter de enfrentar o mundo sabendo que as pessoas são assim e até mesmo os fracassados não estão nem aí para ninguém e você tem que fazer tudo sem esperar nada dos outros para um dia obter como resultado nada menos que toda essa gente que um dia lhe viu como idiota vir lhe chupar as bolas dizendo que você é bacana só porque você agora está mais bem sucedido que eles.
Então você dá de ombros e murmura: foda-se, eu não preciso de nenhuma mosca zumbindo em torno da minha bebida.
O que é uma bosta porque depois de tudo você notará que não se tornou outra coisa que não um deles, outro cretino com o mundo nas mãos e toda essa pose de intocável e cult que não é porra nenhuma porque você estará tão insatisfeito com a vida quanto sempre esteve e é aí que você tomará consciência de que fez tudo e suou e deu o próprio sangue para no fim perceber que você fracassou e que mais do que nunca você se tornou dependente das outras pessoas, os idiotas, os cretinos, os imbecis, essa gente que bate na sua porta, liga pra você, manda e-mails só para que você tenha a quem ignorar e se sentir no poder porque no fundo você não é nada como nunca foi nada e nunca será nada.
Só que de tanto ignorá-los, vai chegar uma hora que até esses idiotas sentirão o baque e desistirão de você, não baterão mais na sua porta, não pedirão seu número de telefone e não mandarão mais e-mails ou elogiarão seus trabalhos.
Você, enfim, terá conseguido, você estará esquecido e numa noite como esta se trancará no quartinho do apartamento que com muito custo você terá comprado, lembrará da última mulher que o abandonou, dos amigos que um dia lhe ofereceram o ombro e que depois se cansaram de você, e você botará as mãos na cabeça e cairá num pranto convulsivo, o primeiro depois de décadas de sorrisos falsos e apertos de mão e abraços negados.
Depois se conterá, estará perdido, mas ainda encontrará forças para ligar o aparelho de som e pôr para tocar aquele velho disco de blues ou de rock and roll ou de jazz que você escutava quando estava começando e aqueles que você tanto admirava ainda lhe viravam as costas porque achavam que você não passava de um idiota, mas ainda assim você não desistia e transbordava daquela paixão tão maravilhosa que hoje lhe faz tanta falta.
Você estará seco, duro, exausto e solitário demais para voltar a pôr a cara outra vez na rua ou no bar ou em qualquer outro lugar que você costumava ir quando tinha amigos e mulheres e eles faziam você acreditar que você era de fato alguma coisa especial quando você não passava de um pedaço de merda exalando podridão e arrogância.
E na manhã seguinte, todos aqueles que haviam lhe esquecido, se lembrarão de você quando abrirem o jornal e numa nota bem discreta verem a notícia de que o seu corpo fora encontrado ainda quente com um tiro auto-infligido bem no meio dessa sua cabeça oca.
Todos eles estarão em volta do seu caixão e chorarão lágrimas de crocodilo tão falsas quanto tudo que você terá vivido até ali, porque aquela terá sido a sua maior obra de arte e o seu nome será enfiado com honras nos anais do esquecimento.


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