existe uma superfície infinita
que bate em mim
com a força de cem punhos
de homens banguelos, bêbados e
insanos, que gritam com o mesmo terror e
silêncio de um vulcão em erupção
existe uma superfície de loucura e de
contas à pagar
bancos
desemprego
fome
filas enormes nos hospitais
no caixa do mercado
dinheiro por comida
roupa
casa
saúde
dinheiro por cagar
trabalhos horríveis por quantias
de dinheiro mais horríveis ainda
e bocas, muitas bocas trazendo o inferno
tente encontrar o real significado para
tudo isso e você terminará
tão louco como jamais
foi

é provável que esse seja o motivo
pelo qual não consigo levar nada adiante
a não ser uma sucessão inacabável de fracassos e
desinteresses

tenho assisto aos jogos olímpicos de Londres
como quem tenta escapar do fundo de um balde
transbordando de merda, e isso me tem feito algum bem
procuro apreciar Londres cinza e chuvosa
bonita como tem de ser
também as modalidades e suas disputas com toda a força
que isso possa significar, e a beleza
especialmente das garotas da ginástica artística com suas séries
e movimentos quase mágicos
é só quando penso no passado que uma pontada
atravessa o corpo
mostrando que em algum lugar de mim ainda existe
uma alma pulsante, pronta para brigar
quase me arrependo dos doze anos
jogados no lixo, e das tantas outras coisas que joguei e
ainda vou jogar

é só que não tenho sonhos
não consigo sonhar

mas o mergulho no breu
na falsa superfície do presente
com as recordações azedas e pontiagudas
pesando feito chumbo
é o que resta
enquanto luto para não sucumbir em filas de espera
para não perder os papéis coloridos
antes que seja decretada
a última sentença

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