Conversa cretina (manual da vida)
Quando durmo, não sei se gosto de ter sonhos bons ou se me agradaria mais ter pesadelos. Se, por um lado, sonhar felicidades inalcançadas é uma espécie de alívio do mundo real e funciona como um convite para o sono, por outro, é um prenúncio de um martírio: quando acordo e descubro que minha alegria existiu apenas no plano onírico, sinto vontade de entrar em coma, dormir para sempre, tornar-me cataléptico para não ter mais de engolir o mundo sem ter ao menos uma coca-cola para ajudar a empurrar. Acordar é entrar numa nova batalha contra a vida (sim, é contra a vida que se luta e não contra a morte), dia após dia construindo trincheiras para evitar a artilharia pesada das ilusões que levam à desilusão, dar o sangue para não idealizar perfeições apenas para, no fim do dia, na cama antes de dormir, perceber que a vida não é mais do que isto: algo idealizado, uma vontade insaciável de ter algo que quando obtido não sacia, um amor de conto de fadas que só existe em contos de fa...