Tenho saudade de todos os meus cachorros que já morreram
Tenho saudade dos meus amigos quando eram amigos
Saudade da fé que eu tinha nas pessoas e do amor quando não era corrompido
Saudade dos elogios, dos gestos de carinho e admiração das minhas utopias
Saudade do vento frio a cortar meu rosto quando os ônibus de viagem abriam janelas
Tenho saudade de quase tudo o que passou e daquilo tudo que não tive
Daquele futuro exato que jamais cruzou meu caminho
Do ânimo que eu tinha para levar porrada
quando não tinha levado tanta porrada
para pedir socorro
Dos sorrisos mais sinceros e o desejo da minha companhia
Tenho saudade de mim que já não sou
Tenho saudade da mentira da minha vida que nunca virou verdade
e dos sonhos bons que tive quando era jovem demais para ainda cair na besteira de acreditar na vida
: O futuro virou presente e o presente esmaeceu ao passado
Os sonhos uma torrente de decepção a curvar minhas costas até o solo
Ah, tenho saudade de quando eu ainda tinha sono
Sonhei deveras pois sou humano antes de ser o que sou
Tenho saudade das saudades que de mim sentiam
Tenho saudade de toda e cada coisa que não vivi e pelo que vivi
Tenho saudade de ser escritor, artista, anjo louco cheio de vida
Tenho saudade de quando a vida era mais fácil e eu não queria morrer
Tenho saudade do poeta que havia em mim antes de ser tapeado pela sorte
Saudade de ter uma família ou o plano de uma família ou qualquer coisa parecida
Saudade de quando isso não fazia de mim um ser ridículo
Saudade de tanta coisa que em mim não cabe
Maldito aquele que inventou a saudade e não me ensinou o caminho de volta
Condenado a viver à deriva e à espera de um naufrágio
Quando o que há é a certeza da saudade e a falta de esperança
A vontade da mudança e a impossibilidade do voltar a ser o que fui
Antes que tudo se reduzisse a cinzas
Antes que o mundo se cansasse de mim e me condenasse à eterna solidão da alma.

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